Entre Cordilheiras.
Quinze dias, três cordilheiras.
O roteiro começa a 2.300 m num deserto frio e acaba numa cidade pashtun a 350 m. Entre um e outro: quatro línguas, três religiões, dois passos acima dos 3.700 m e um voo que pode não descolar.
Um roteiro em três atos.
Baltistão xiita e tibetano de cultura. Hunza ismaelita e aberto. Chitral e Peshawar, onde o país volta a ser conservador. As regras mudam a cada passo de montanha.
O que a brochura não diz.
Onde não há multibanco, onde a luz falta 18 horas por dia, porque é que o dia 1 é o mais frágil do programa e o que é a Bashali.
Dia a dia, com contexto.
Cada dia com o detalhe que interessa: altitude, esforço, o que levar no dia, o que ver que não está no plano. O dia atual fica destacado; os passados esbatem.
O dia a dia.
O programa oficial diz para onde se vai. Abaixo está o que interessa saber em cada dia e não está lá. Pequeno-almoço incluído todos os dias exceto o primeiro; almoço e jantar por conta própria, sempre.
- Dia 01 · Dom 13
Islamabad → Skardu → Shigar → Sarfaranga
- O voo Islamabad–Skardu é o ponto mais frágil do roteiro: voa-se à vista entre montanhas e qualquer nuvem cancela.
- Há semanas em que a PIA cancela três voos em quatro dias. Plano B é estrada, 12–14 h.
- Pedir janela do lado esquerdo à ida: Nanga Parbat.
- Skardu fica a 2.230 m. Dor de cabeça ligeira ao fim do dia é normal.
- Shigar Fort é um palácio raja de 400 anos restaurado pelo Aga Khan Trust. O almoço é o pretexto para ver a marcenaria caxemira sem pagar a estadia.
- Sarfaranga, a 2.300 m, é um dos desertos mais altos do mundo. Só fica bonito depois das 17 h.
- Trocar euros ou dólares em Islamabad antes do voo. No norte quase nenhum ATM aceita cartões estrangeiros.
- Como se diz: Islamabad
islamabád, Skarduskárdu, Shigarchigár, Sarfarangasarfarânga.
- Dia 02 · Seg 14
Hussainabad e Marsur Rock
- Um dos três dias duros: 800 m de desnível em menos de 3 km, sem sombra.
- Sair cedo, 2 litros de água por pessoa, chapéu, protetor 50. UV a 2.500 m queima em 40 minutos.
- Terreno solto e pedregoso. Bastões ajudam mais na descida.
- Marsur Rock é uma laje de 11 m em consola sobre o vale, "descoberta" pelo turismo em 2017 via redes sociais. Sem barreiras; o vento a meio da tarde é real.
- Baltistão é xiita, com minoria Noorbakhshi, e bem mais conservador que Hunza. Mulheres locais raramente aparecem em público.
- Lenço não é obrigatório. Ombros e joelhos cobertos evitam olhares.
- Alternativa a quem não quer subir: ficar em Hussainabad. A viagem continua igual no dia seguinte.
- Como se diz: Hussainabad
hussainabád, Marsurmarsúr, Noorbakhshinurbákhchi.
- Dia 03 · Ter 15
Skardu → Raikot Bridge → Tato → Fairy Meadows
- Manhã de estrada pelo vale do Indo até à ponte de Raikot. Depois troca para jipes locais.
- Raikot–Tato: 15 km de pista escavada na encosta, sem rails, regularmente listada entre as estradas mais perigosas do mundo.
- Regra não escrita: não pedir para parar, não fotografar o condutor. Quem tem vertigens senta do lado da montanha.
- Tato → Fairy Meadows: 2–3 h a pé, 5 km, 600 m de subida por pinhal. Mulas levam a bagagem grande.
- Chega-se a 3.300 m. Dormir aqui é o teste real à altitude.
- Cabanas de madeira sem aquecimento fiável, água quente rara. Noite perto de 0 °C: gorro, meias grossas, liner.
- Melhor noite de céu da viagem. Sem luz elétrica em redor, a Via Láctea aparece sobre o Nanga Parbat.
- Carregar tudo o que tem bateria antes de sair de Skardu. Powerbank e lanterna frontal a partir daqui.
- Como se diz: Raikot
ráikot, Tatotáto, Fairy Meadowsféri mêdous, Nanga Parbatnânga párbat.
- Dia 04 · Qua 16
Fairy Meadows ⇄ Beyal Camp
- 4 km até Beyal a cerca de 3.550 m. Terreno suave; o que pesa é o ar.
- Ritmo lento, passo curto, água sempre. Sem álcool na véspera.
- Quem estiver bem segue 1,5 km até ao miradouro do Nanga Parbat, perto dos 3.900 m, com o glaciar Raikot à frente.
- A face visível é a Raikot. "Killer Mountain" por 31 mortes antes da primeira ascensão, em 1953, por Hermann Buhl, sozinho e sem oxigénio.
- Sintomas a vigiar: dor de cabeça que não passa com água e analgésico, náusea, cansaço desproporcional. A resposta é descer, não insistir.
- Alternativa: ficar em Fairy Meadows. A vista da montanha é a mesma.
- Como se diz: Beyal
beiál, Raikotráikot.
- Dia 05 · Qui 17
Fairy Meadows → Karakoram Highway → Minapin
- Descida a pé, jipe até Raikot e depois a Karakoram Highway para norte.
- Em Jaglot, o ponto onde Karakoram, Himalaias e Hindu Kush se tocam e o rio Gilgit desagua no Indo. É um painel e um miradouro; a geologia impressiona mais que a vista.
- Miradouro de Rakaposhi (7.788 m): um dos raros lugares onde se vê uma montanha do vale ao cume, quase 6.000 m de parede sem interrupção.
- Os cafés à beira da estrada servem chá ao lado do rio glaciar. Parar.
- Minapin fica na base do Rakaposhi. A partir daqui é Hunza: mulheres a conduzir, cafés mistos, ninguém a olhar.
- Como se diz: Jaglot
djaglót, Rakaposhirakapôchi, Minapinminapín, Hunzahúnza.
- Dia 06 · Sex 18
Hopper, Ganesh, Baltit e Altit
- O glaciar de Hopper é negro de detritos, não branco. Pisa-se sem equipamento, mas o gelo sob o cascalho é traiçoeiro. Seguir o guia, não a foto.
- Ganesh é a aldeia mais antiga de Hunza, xiita numa região ismaelita, com mesquitas de madeira dos séculos XV a XVIII. Fica fora dos roteiros; pedir para parar.
- Altit (c. 1100) é mais antigo que Baltit (c. 1300) e mais honesto: menos restauro, mais rocha.
- Baltit parece um castelo tibetano porque um príncipe casou com uma princesa de Baltistão e trouxe os artesãos. Restaurado pelo Aga Khan Trust em 1996.
- Kha Basi Café, em Altit, é gerido por mulheres locais. Melhor almoço do dia.
- Sexta é dia de oração: lojas fecham perto do meio-dia em muitas aldeias, menos em Karimabad.
- Em Hunza central a eletricidade pode faltar 18–22 h por dia. Carregar quando há corrente.
- Como se diz: Hopper
hôper, Ganeshganêch, Baltitbaltít, Altitaltít, Karimabadkarimabád, Kha Basikhá bássi.
- Dia 07 · Sáb 19
Gojal: Attabad, Hussaini, Passu, Khunjerab
- Partida às 5 h porque Khunjerab fica a cerca de 4 h e a fronteira fecha cedo.
- Khunjerab, 4.693 m: a fronteira pavimentada mais alta do mundo. Sobe-se de 2.400 m para 4.700 m em carro, sem aclimatação. Falta de ar e dor de cabeça são esperadas; ficar pouco tempo lá em cima.
- Permit do parque nacional paga-se à entrada. O guia trata.
- Attabad não existia antes de 4 de janeiro de 2010. Um deslizamento matou 20 pessoas, enterrou a aldeia e represou o rio Hunza. O lago cortou a KKH cinco anos, até os túneis chineses abrirem em 2015.
- A ponte de Hussaini é tábuas espaçadas e cabos. Só com o rio baixo e o vento parado.
- A partir de Gulmit o povo é Wakhi, não Burusho: outra língua, ligações ao Afeganistão e ao Tajiquistão. As mulheres tecem os tapetes do ateliê.
- Pequeno-almoço wakhi: bolo de alperce e chá com sal e manteiga. Faz sentido a 3.000 m.
- Quem não quer subir a 4.700 m fica em Passu e apanha o grupo à volta.
- Como se diz: Gojal
godjál, Attabadatabád, Hussainihussêini, Passupássu, Khunjerabkhundjeráb, Gulmitgulmít, Wakhiuákhi, Burushoburúcho.
- Dia 08 · Dom 20
Hunza → Gilgit → Ghizer → Gupis
- Dia de estrada pelo vale de Ghizer, o "outro" caminho da Rota da Seda. Obras em vários troços; contar com mais horas do que o mapa diz.
- O rio Ghizer é turquesa verdadeiro, não filtro.
- Ghizer é a região mais tolerante de Gilgit-Baltistan, ismaelita como Hunza.
- É a fronteira linguística: deixa-se de ouvir Burushaski e Shina, começa-se a ouvir Khowar, a língua de Chitral.
- Se houver tempo, o lago Phander ao fim da tarde justifica um desvio de vinte minutos. Quase sem turistas em setembro.
- Últimos dias com rede móvel irregular até Chitral. Avisar a família.
- Como se diz: Ghizer
guizér, Gilgitguílguit, Gupisgúpis, Phanderfândar, Burushaskiburuchásski, Shinachiná, Khowarkhouár.
- Dia 09 · Seg 21
Gupis → Shandur Top → Mastuj
- Shandur, 3.700 m, é um planalto e não um passo estreito: o campo de polo mais alto do mundo, onde Chitral e Gilgit se enfrentam em julho desde os anos 1930.
- Em setembro está vazio, com pastores e iaques.
- Pista de terra e cascalho, 1.ª e 2.ª velocidade durante horas. Quem enjoa toma algo antes do pequeno-almoço, não depois.
- A pista fecha com a primeira neve, normalmente em novembro. Em setembro pode haver geada de manhã.
- Ao descer para Mastuj entra-se em Khyber Pakhtunkhwa. Checkpoint com registo de estrangeiros: passaporte e fotocópias à mão.
- Mastuj tem um forte do século XVIII da família real de Chitral. Guesthouse básica, noite fria.
- Como se diz: Shandur
chandúr, Mastujmastúdj, Khyber Pakhtunkhwakhâiber pakhtunkhuá.
- Dia 10 · Ter 22
Mastuj → Chitral → Ayun → Rumbur
- Chitral foi principado independente até 1969. O povo Kho fala Khowar, sunita na maioria, com minoria ismaelita a norte.
- Mais conservador que Hunza: ombros e joelhos cobertos. Só há homens nos bazares.
- Em Chitral, o Shahi Masjid junto ao forte, com o Tirich Mir (7.708 m) ao fundo em dias limpos.
- Almoço em Chitral é o último com escolha real de restaurantes até Peshawar.
- Entrada nos vales Kalash paga-se em Ayun, cerca de 600 PKR por estrangeiro, com registo de passaporte.
- Rumbur é o vale mais estreito e menos turístico dos três. Bumburet tem os hotéis e os autocarros de fim de semana. A escolha foi deliberada.
- Como se diz: Chitral
tchitrál, Khokhô, Tirich Mirtíritch mír, Shahi Masjidcháhi másdjid, Ayunaiún, Rumburrumbúr, Bumburetbumburét.
- Dia 11 · Qua 23
Um dia com os Kalash
- Os Kalash não são muçulmanos. Cerca de 4.000 pessoas, religião própria e politeísta, deuses de montanha, sacrifícios de cabras, três festivais anuais.
- Chawmos, no solstício de dezembro, é o maior. Em setembro não há festival; há a vida normal, que é o que se vai ver.
- A brochura coloca-os em Gilgit-Baltistan. É em Chitral, Khyber Pakhtunkhwa.
- Mulheres de rosto descoberto, vestidos pretos bordados, toucados de conchas e missangas. Produzem e bebem vinho de uva e mulberry.
- Nada disto é "atração". Não pagar por fotografias, não fotografar sem perguntar, nunca fotografar mulheres em silêncio à distância. O turismo de fotografia já causou problemas reais no vale.
- Bashali é a casa onde as mulheres passam a menstruação e o parto. Interdita a homens e a visitantes; fica junto ao rio, o guia dirá onde não ir.
- As sepulturas antigas eram caixões de madeira ao ar livre. Hoje quase todas enterradas, após décadas de roubo de ossos por curiosos.
- Cada vez mais Kalash convertem-se ao Islão, sobretudo por casamento. Tema sensível: ouvir mais do que perguntar.
- Um copo de vinho é cortesia; recusar com um sorriso é aceitável. Fotografar o copo alheio não.
- Como se diz: Kalash
kalách, Chawmostchaumós, Bashalibacháli.
- Dia 12 · Qui 24
Rumbur → Lowari → Dir → Peshawar
- Dia mais longo de estrada, 10 h ou mais.
- O túnel de Lowari, 8,5 km, substituiu em 2017 um passo que fechava Chitral seis meses por ano. Funciona com horários e sentido único por períodos; atrasos são normais.
- Dir e Swat inferior são território pashtun. A partir daqui a hospitalidade é código, o Pashtunwali: convidar um estranho para chá é obrigação.
- As mulheres locais desaparecem do espaço público quase por completo.
- Não fotografar polícia, militares, pontes ou quartéis. Vários checkpoints.
- Em Peshawar muitos hotéis avisam a polícia e aparece escolta para estrangeiros. Não se pede, não se recusa. É protocolo, não sinal de perigo iminente.
- Como se diz: Lowari
louári, Dirdír, Pashtunwalipachtunuáli, Peshawarpecháuar.
- Dia 13 · Sex 25
Peshawar, cidade velha
- Mesquita Mohabbat Khan, 1660–1670, mármore branco e frescos florais mogóis.
- É sexta: evitar a hora da oração (13–14 h). Mulheres com lenço, todos sem sapatos e com joelhos cobertos.
- Qissa Khwani, o "bazar dos contadores de histórias", é onde as caravanas da Ásia Central paravam a ouvir baladas.
- Chapli kebab: almôndega plana de vaca com romã seca e coentros, frita em gordura de borrego. Qehwa: chá verde com cardamomo, oferecido em cada loja.
- Namak Mandi é a rua da carne à noite. O karahi de cabrito pede-se ao quilo.
- Sethi House, no bairro de Mohallah Sethian: casa de mercadores do século XIX com madeira entalhada e espelhos, a dez minutos a pé do bazar. Poucos roteiros a incluem.
- Peshawar é a cidade mais conservadora do roteiro. Fotografar pessoas só com pedido explícito, nunca mulheres.
- Como se diz: Mohabbat Khan
mohábat khán, Qissa Khwaniquíssa khuáni, qehwakéhua, chapli kebabtchápli kebáb, Namak Mandinamák mândi, Sethisêti.
- Dia 14 · Sáb 26
Peshawar → Islamabad
- Duas horas de autoestrada.
- Islamabad é uma cidade planeada dos anos 1960, desenhada pelo grego Doxiadis, em quadrícula com setores por letra e número. Mais Brasília que Peshawar.
- Faisal Mosque, 1986: sem cúpula, em forma de tenda beduína, a maior do mundo até 1993.
- Daman-e-Koh, nas colinas Margalla, tem a vista sobre a cidade ao pôr do sol.
- Rúpias não se trocam facilmente fora do país. Gastar ou trocar hoje.
- Alperces secos, sal rosa e xailes de pashmina passam na alfândega europeia. Sementes e frutos frescos não.
- Como se diz: Faisal
fáissal, Daman-e-Kohdamân-e-kô, Margallamargála.
- Dia 15 · Dom 27
Voo de madrugada e regresso
- O aeroporto de Islamabad tem três controles de segurança antes do check-in. Chegar com três horas.
- Certificado de pólio só é exigido à saída a quem ficou mais de quatro semanas. Não se aplica a este grupo.
- +4 h em relação a Portugal. O corpo chega na segunda.
Quatro códigos culturais.
Não há um Paquistão. Há o Baltistão, Hunza, Chitral e o país pashtun, e a viagem passa por eles nesta ordem. O que é normal num sítio é rude no seguinte.
Baltistão: Tibete xiita.
Balti é uma língua tibetana arcaica escrita em alfabeto persa. A comida não é picante: prapu (massa com molho de nozes e óleo de alperce), kisir (pão de trigo sarraceno), chá de manteiga. Conservador; mulheres locais quase invisíveis. Fotografar homens é aceitável com um aceno; mulheres, não.
dias 1–2Hunza: o vale ismaelita.
Seguem o Aga Khan. Alfabetização perto dos 95%, a mais alta do país. Sem mesquitas com minaretes, mas jamaat khanas discretas. Mulheres em cafés, a conduzir, a gerir negócios. Burushaski, a língua, não tem parente conhecido no mundo. Alperce em tudo: seco, em óleo, em sopa, em bolo.
dias 5–8Chitral e Kalash: a exceção.
Chitral sunita e formal; Kalash politeístas com vinho e dança. A hospitalidade nos dois é séria: aceitar o chá, sentar quando oferecem, tirar os sapatos ao entrar em casa. Em Kalash, o grupo será convidado a beber; recusar com um sorriso é aceitável, fotografar o copo alheio não.
dias 9–11Pashtun: o código de honra.
Pashtunwali organiza tudo: melmastia (hospitalidade), nanawatai (asilo), badal (vingança). Um convidado é sagrado, e a insistência para comer mais é sincera. Cumprimento entre homens é aperto de mão e mão ao peito; a mulher estrangeira espera que o homem local estenda a mão primeiro, e muitos não estendem. Não é hostilidade.
dias 12–13- Baltistão
O Pequeno Tibete que virou xiita.
- Até ao século XIV era budista e parte do mundo tibetano. Balti é um tibetano arcaico que preservou sons que Lhasa perdeu; escreve-se hoje em alfabeto persa, e há um movimento para recuperar a escrita tibetana.
- O Islão chegou por missionários sufis vindos do Irão e da Caxemira. A ordem Noorbakhshi, quase exclusiva do Baltistão, é um meio-termo entre sunismo e xiismo e sobrevive em Khaplu e Shigar.
- Skardu é xiita duodecimano. Bandeiras negras e verdes, retratos de clérigos e murais de Karbala são normais na cidade. Não são ameaça; também não são para fotografar.
- Dois principados, dois palácios: os Maqpon em Skardu e os Amacha em Shigar. O Shigar Fort do almoço do dia 1 é a casa dos Amacha, do século XVII, restaurada pelo Aga Khan Trust em 2005.
- As mesquitas antigas são de madeira e parecem pagodes: Amburiq em Shigar, século XIV, é a mais antiga da região. Vale a paragem se o guia aceitar.
- Setembro é a época de secar alperce. Telhados cor de laranja em Shigar e Skardu não são decoração; é a economia da família a secar ao sol.
- Polo é o desporto de identidade, jogado sem árbitro e sem muitas regras, com surnai e tambores a marcar o ritmo. Shigar e Skardu têm campos no centro da aldeia.
- Mulheres do grupo: vestir mais coberto do que em Hunza, sem obrigação de lenço. Homens do grupo: não estender a mão a mulheres locais, e não haverá muitas para cumprimentar.
- Hunza
Um principado ismaelita que apostou em escolas.
- Foi um estado com príncipe, o Mir, até 1974. A família ainda vive em Karimabad, abaixo do forte de Baltit que era a sua casa até 1945.
- Ismaelitas seguem o Aga Khan como imã vivo. O atual é o Aga Khan V, Rahim, desde fevereiro de 2025, após a morte do pai. O retrato do imã está em quase todas as casas e lojas.
- A rede Aga Khan investe aqui desde 1982: escolas, saúde, restauro de fortes, canais de irrigação. Resultado: alfabetização perto dos 95%, a mais alta do país, e a maior proporção de mulheres com curso superior.
- Sem mesquitas com minaretes nem chamada à oração. Os ismaelitas rezam em jamaat khanas, fechadas a não ismaelitas. Sexta não fecha o vale.
- Mulheres trabalham em público: o Kha Basi Café em Altit, a oficina de carpintaria CIQAM ao lado, a escola de música Bulbulik em Gulmit. Cumprimentar e conversar com mulheres é normal.
- Burushaski não tem parente conhecido em nenhuma família linguística. Conta em base 20, tem quatro géneros gramaticais e cerca de 100.000 falantes.
- A fama de longevidade (os "Hunzakuts que vivem 120 anos", Shangri-La de James Hilton) é mito dos anos 1930 sem registo civil por trás. Os locais riem-se disto, e ouvem-no todas as semanas.
- O pôr do sol certo é em Duikar (Eagle's Nest), acima de Altit, com Rakaposhi, Ultar e Ladyfinger de uma vez. Não está no programa; fica a 20 minutos de Karimabad.
- Hunza water, o vinho de mulberry, é ilegal e tolerado em privado. Se oferecerem, é confiança. Não pedir, não fotografar, não comentar em público.
- Chitral · Kalash
Um principado sunita e o último vale politeísta.
- Chitral teve príncipe próprio, o Mehtar da dinastia Katoor, até 1969. O forte ainda pertence à família. O Shahi Masjid ao lado é de 1924, construído pelo Mehtar da época.
- Os Kho são conhecidos no país por música e poesia em Khowar, pelo sitar chitrali e por tecer lã: o pakol e o casaco comprido, chugha, vêm daqui.
- Os Kalash organizam o mundo em puro e impuro, onjesta e pragata. Homens, montanhas, cabras e o alto do vale são puros. Mulheres, o fundo do vale e os forasteiros não. A Bashali é uma consequência disto, não um castigo.
- Templos: o Jestak-han é a casa da deusa da família, com pilares de madeira entalhados, e o altar de Mahandeo fica fora da aldeia, num lugar puro. Visitantes só com o guia local e só onde ele indicar.
- Cerca de 7.500 falantes de Kalasha no censo de 2023, mas menos de 4.000 ainda praticam a religião. As conversões continuam, sobretudo por casamento. Convertidos vestem-se de forma diferente e deixam o vale ou a família.
- Bumburet recebe milhares de turistas paquistaneses nos festivais, e as mulheres Kalash queixam-se de assédio e de fotografias sem consentimento. Rumbur ficou de fora disso, por agora. O grupo é parte de manter isso assim.
- Apoio que funciona: comprar colares de missangas e shushut diretamente às mulheres que os fazem, pagar a guesthouse local, comprar vinho e queijo às famílias. Não dar doces a crianças nem dinheiro por fotografias.
- Vinho Kalash chama-se tara. Serve-se em festas e a convidados; o grupo será convidado.
- Pashtun
Peshawar: 2.000 anos de cidade e um código de honra.
- Pashtunwali é lei não escrita, mais antiga que o Islão na região. Melmastia é hospitalidade sem esperar retorno. Nanawatai é asilo a quem pede, mesmo inimigo. Badal é retribuição, boa ou má. Um convidado está protegido pelas três.
- Hujra é a sala de hóspedes comunitária dos homens de uma aldeia ou família. Um grupo estrangeiro pode ser convidado; mulheres estrangeiras são muitas vezes tratadas como convidados honorários e entram, mas cabe ao anfitrião convidar.
- Purdah é forte: em Peshawar a maioria das mulheres usa chadar ou burqa. Para as mulheres do grupo, lenço e dupatta não são obrigatórios por lei mas mudam tudo na rua.
- Homens de mãos dadas ou de braço dado em público são amizade, não casal. Homens que se conhecem abraçam-se três vezes.
- Peshawar foi capital de Gandhara, o reino budista que inventou o Buda com rosto grego. O Museu de Peshawar tem a maior coleção de escultura Gandhara do mundo. Não está no programa, fica a 10 minutos da mesquita e é a melhor hora do dia 13.
- Nos anos 1980 a cidade foi a capital da resistência afegã e recebeu milhões de refugiados. A comida, o naswar (rapé verde que os homens levam sob o lábio) e o rubab são tão afegãos quanto paquistaneses.
- A Peshawari chappal, sandália de couro com sola de pneu, é o souvenir do país inteiro e compra-se onde nasceu, em Namak Mandi ou Jahangirpura. Feita à medida em duas horas por 3.000 a 6.000 PKR.
- Não fotografar polícia, Frontier Corps, o forte de Bala Hisar nem pontes. Homens no bazar geralmente querem ser fotografados; pedir de qualquer forma. Mulheres, nunca.
Regras que valem nos quatro.
Mão direita para comer, dar e receber. Sapatos fora em casas, mesquitas e muitas guesthouses. Não apontar a sola dos pés a ninguém. Álcool é ilegal para muçulmanos e não se vende; a exceção Kalash e o vinho de mulberry de Hunza são caseiros e discretos. Não beber nem comer em público durante a oração de sexta é cortesia, não regra. E o convite para chá é sempre real.
Palavras que abrem portas.
Urdu é a língua comum e chega em todo o lado. Mas cada vale tem a sua, quase nenhuma se escreve há mais de duas gerações, e uma palavra local dita com sotaque errado vale mais do que dez em urdu perfeito. A grafia varia; ninguém corrige um estrangeiro que tenta. A pronúncia abaixo está escrita à portuguesa: kh é o "j" espanhol, um "r" arranhado na garganta; o acento marca a sílaba forte.
- Todo o país
Assalam-o-alaikum
assalâmu alêicum · resposta: ualêicum assalâm"A paz esteja convosco". Resposta: Walaikum assalam. Serve para entrar em qualquer loja, carro ou casa.
- Hunza, Gojal, Ghizer
Ya Ali Madad
iá áli madád · resposta: móla áli madádA saudação ismaelita, "que Ali ajude". Resposta: Mawla Ali Madad. É o que distingue quem percebeu onde está de quem não percebeu. Não usar em Skardu nem em Peshawar.
- Skardu, Baltistão
Khamulo
khamúloSaudação tradicional balti, revivida nos últimos anos e visível em letreiros de cafés. Os mais velhos respondem com um sorriso de surpresa.
- Hunza central
Besan hal bila?
bêssan hál bilá · resposta: chúa"Como estás?" em Burushaski, a língua sem parentes. Resposta simples: shuwa, bem.
- Gojal (Gulmit, Passu)
Baf
báf"Bem" em Wakhi. É a resposta a "como estás?" e a única palavra necessária para os wakhi ficarem contentes.
- Vales Kalash
Ishpata
ichpátaOlá em Kalasha, língua com cerca de 7.000 falantes. É a palavra mais valiosa da viagem inteira: quase nenhum visitante a sabe.
- Dir, Peshawar
Pakhair
pakhêr · resposta: pakhêr rághle · manâna · kháBem-vindo em Pashto, dito por quem recebe. A resposta é pakhair raghle. Obrigado é manana. "Bem" é kha.
- Todo o país
Shukriya
chúcria · bôhat chúcria · djúanObrigado em urdu. Bohat shukriya para muito obrigado. Em Hunza também se ouve juwan.
- Todo o país
Theek hai
tík hê"Está bem", "ok", "combinado". A palavra mais usada do país. Com entoação de pergunta pergunta se está tudo bem.
- Bazares
Kitne ka hai?
kítne ká hê"Quanto custa?". Em Peshawar negoceia-se; em Hunza os preços são quase fixos e insistir é deselegante.
- Todo o país
Photo theek hai?
fôto tík hê"Posso fotografar?" em urdu de rua. Um gesto com o telemóvel e esta frase resolvem 90% das situações. Um "não" é definitivo.
- Todo o país
Inshallah
inchálla"Se Deus quiser". Sobre um voo, uma estrada ou um horário significa "provavelmente, mas não prometo". Ouvir isto sobre o voo para Skardu é normal.
- Todo o país
Bhai / Baji
bhái (b com sopro) / bádjiIrmão / irmã mais velha. É como se chama um condutor, um empregado ou uma vendedora sem saber o nome. Muito mais simpático do que "senhor".
- Todo o país
Zabardast
zabardást"Fantástico". Dizê-lo sobre a comida, a vista ou a condução do jipe rende um sorriso garantido.
- Todo o país
Khuda hafiz
khudá háfiz · allá háfizAdeus, "que Deus te guarde". Muitos dizem Allah hafiz; as duas formas são aceites.
Detalhes que fazem a diferença.
- Vestir
Um shalwar kameez comprado no primeiro dia.
- Custa entre 2.000 e 4.000 PKR feito, em Islamabad ou Skardu. Em algodão claro é a roupa mais confortável para 3.000 m de dia e Peshawar à noite.
- Muda a forma como se é tratado nas aldeias, nos checkpoints e nos bazares. Não é fantasia; é o que toda a gente veste.
- Para mulheres, um dupatta (lenço comprido) resolve mesquitas, Chitral e Peshawar sem ter de mudar de roupa.
- Como se diz: shalwar kameez
chalúar camíz, dupattadupáta.
- Cabeça
Os chapéus dizem de onde cada um é.
- O pakol, boina de lã enrolada, é de Chitral e usada em todo o Hindu Kush. Comprá-lo em Chitral, não em Islamabad.
- Em Hunza os homens usam um gorro de lã branca com aba enrolada e uma pena; as mulheres um barrete bordado sob o lenço, cada padrão ligado a uma aldeia.
- As mulheres Kalash usam o kupas, o toucado grande de conchas, em dias de festa, e o shushut, a banda mais pequena, todos os dias. Não pedir para experimentar.
- Como se diz: pakol
pakól, kupaskupás, shushutchuchút.
- Cumprimentar
Mão direita ao peito depois do aperto de mão.
- Entre homens: aperto de mão e a mão direita leva-se ao coração. Em Peshawar, homens que se conhecem abraçam-se três vezes.
- Homem estrangeiro não estende a mão a uma mulher local. Mulher estrangeira espera que o homem estenda primeiro; muitos não estendem e levam a mão ao peito. Não é frieza.
- Em Hunza a regra é mais solta: as mulheres cumprimentam e conversam. Em Skardu, Chitral e Peshawar, não.
- Chá
O chá é a moeda social. Aceitar sempre o primeiro.
- Doodh patti é o chá do país: folhas fervidas em leite com açúcar, sem água. Pedir "kam cheeni" para menos açúcar.
- Em Baltistão e Gojal há chá com sal e manteiga, herança tibetana e wakhi. Prova-se sem cara.
- Em Peshawar o chá é verde, qehwa, com cardamomo, servido em bule e sem leite. Recusar a segunda chávena: tapar a chávena com a mão ou virá-la ao contrário.
- A oferta de chá de um estranho é sincera e não espera nada em troca. Dez minutos sentado valem mais do que qualquer fotografia.
- Como se diz: doodh patti
dúd páti, kam cheenikam tchíni, qehwakéhua.
- Mesa
Mão direita, pão como talher, anfitrião serve.
- Come-se com a mão direita. O roti ou o naan rasga-se em pedaços e usa-se para apanhar a comida. A esquerda fica no colo.
- Deixar um pouco no prato é sinal de que se ficou satisfeito. Prato vazio traz mais comida, sem pergunta.
- Em casa de alguém, o anfitrião come depois dos convidados ou não come. Insistir para que se sente é cortesia; ele vai recusar.
- Não há álcool à mesa em lado nenhum, exceto em casas Kalash. Não pedir cerveja em restaurantes; não existe.
- Como se diz: roti
rôti, naannân.
- Conversa
Críquete abre, política fecha.
- Críquete é a conversa universal com qualquer homem entre 8 e 80 anos. Saber que o Paquistão ganhou o Mundial de 1992 e o T20 de 2009 já chega.
- Índia, Caxemira, o exército e os drones são temas que os locais podem levantar; o visitante não levanta. Ouvir e não opinar.
- Perguntar pela família é normal e esperado, mas perguntar por "a esposa" a um homem pashtun não. Pergunta-se pela "família".
- Cumprimentos ao país e à comida são sempre bem recebidos, mesmo quando sinceros só em parte. Comparar com a Índia, nunca.
- Rezar
Cinco vezes por dia, e o país para durante uns minutos.
- O azan, a chamada, ouve-se em Skardu, Chitral e Peshawar. Em Hunza não: os ismaelitas rezam em jamaat khanas, discretas, fechadas a não ismaelitas.
- Se um condutor ou guia para para rezar, esperam-se dez minutos sem comentar. Não fotografar quem reza.
- Na mesquita Mohabbat Khan: sapatos fora, joelhos e ombros cobertos, lenço para mulheres, silêncio. Fora das horas de oração é bem-vindo quem vem ver.
- Como se diz: azan
azân, jamaat khanadjamát khâna.
O que comer, e onde.
As refeições não estão incluídas, o que é uma vantagem. A comida do norte é pouco picante, cheia de nozes e alperce, e muda de vale para vale.
- Baltistão
Prapu, kisir, chá de manteiga.
Prapu é massa fresca com molho de nozes moídas e óleo de alperce. Kisir é pão fino de trigo sarraceno. Os alperces de Skardu são mais doces que os de Hunza, e os locais fazem questão de dizer isso.
Como se diz: prapu
prápu, kisirkissír, Baltibálti. - Hunza
Chapshuro, giyaling, bolo de nozes.
Chapshuro é um pão recheado de carne picada, cebola e coentros, cozido em chapa: a "pizza de Hunza". Giyaling é panqueca fina de trigo com óleo de alperce. O bolo de nozes do Café de Hunza em Karimabad é o mais famoso do país e merece a fila. Hunza water é o vinho de mulberry caseiro, ilegal em teoria, oferecido em privado.
Como se diz: chapshuro
tchapchúro, giyalingguialíng. - Chitral
Shoshp, kali, chá verde.
Cozinha de inverno: massa em caldo, pão frito, nozes e mel. Os Kalash fazem queijo de cabra seco e pão de nozes. O vinho Kalash é ácido e forte; um copo é cortesia, dois é decisão.
Como se diz: shoshp
chóchp, kalikáli. - Peshawar
Chapli kebab, karahi, qehwa.
Chapli kebab pede-se em Namak Mandi ou junto ao bazar, frito à vista. O karahi de Peshawar é só carne, tomate, sal e pimenta verde, sem molho pesado, ao quilo. Qehwa é chá verde com cardamomo; oferecido em cada loja onde se fica mais de dois minutos.
Como se diz: chapli
tchápli, karahikaráhi, qehwakéhua.
Fontes e leitura adicional
Against the Compass — Fairy Meadows trek & Nanga Parbat Base Camp
Against the Compass — A guide to the Karakoram Highway
Raahi Retreats — How to get to Skardu and what to do when flights cancel
Lost With Purpose — Guide to visiting the Kalash Valleys
Lost With Purpose — Where do I need security in Pakistan?
Wikipedia — Attabad Lake
Wikipedia — Khunjerab Pass
Wikipedia — Kalash people
Wikipedia — Shandur Pass
Wikipedia — Mahabat Khan Mosque
Heritage Hike — SIM cards and internet in northern Pakistan
Express Tribune — Nationwide drone ban
Pakistan Observer — Hunza power crisis
Burushaski Language Documentation Project — Everyday greetings
Hunza & Beyond — Languages of Gilgit-Baltistan
Wikipedia — Kalasha language
Omniglot — Useful phrases in Pashto
Wikipedia — Pashtunwali
Wikipedia — Noorbakhshia
Wikipedia — Hunza Valley
Wikipedia — Peshawar Museum
Wikipedia — Etiquette in Pakistan
Migrationology — Traditional Baltistan food
Apricot Tours — Food in Hunza