Vol. 01 — Issue 08 research.danilowoz.com Setembro 2026

Entre Cordilheiras.

Paquistão · Karakoram · Hindu Kush Issue №08

Quinze dias, três cordilheiras.

O roteiro começa a 2.300 m num deserto frio e acaba numa cidade pashtun a 350 m. Entre um e outro: quatro línguas, três religiões, dois passos acima dos 3.700 m e um voo que pode não descolar.

Nanga Parbat refletido num pequeno lago em Fairy Meadows, com pinheiros escuros em primeiro plano e a face Raikot coberta de neve ao fundo.
Nanga Parbat a partir de Fairy Meadows. 8.126 m, a nona montanha do mundo e a que a viagem vê de mais perto, nos dias 3 a 5. Foto: Muhammad Zain Butt, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Um roteiro em três atos.

Baltistão xiita e tibetano de cultura. Hunza ismaelita e aberto. Chitral e Peshawar, onde o país volta a ser conservador. As regras mudam a cada passo de montanha.

O que a brochura não diz.

Onde não há multibanco, onde a luz falta 18 horas por dia, porque é que o dia 1 é o mais frágil do programa e o que é a Bashali.

Dia a dia, com contexto.

Cada dia com o detalhe que interessa: altitude, esforço, o que levar no dia, o que ver que não está no plano. O dia atual fica destacado; os passados esbatem.

O dia a dia.

O programa oficial diz para onde se vai. Abaixo está o que interessa saber em cada dia e não está lá. Pequeno-almoço incluído todos os dias exceto o primeiro; almoço e jantar por conta própria, sempre.

  • Dia 01 · Dom 13
    Islamabad → Skardu → Shigar → Sarfaranga
    • O voo Islamabad–Skardu é o ponto mais frágil do roteiro: voa-se à vista entre montanhas e qualquer nuvem cancela.
    • Há semanas em que a PIA cancela três voos em quatro dias. Plano B é estrada, 12–14 h.
    • Pedir janela do lado esquerdo à ida: Nanga Parbat.
    • Skardu fica a 2.230 m. Dor de cabeça ligeira ao fim do dia é normal.
    • Shigar Fort é um palácio raja de 400 anos restaurado pelo Aga Khan Trust. O almoço é o pretexto para ver a marcenaria caxemira sem pagar a estadia.
    • Sarfaranga, a 2.300 m, é um dos desertos mais altos do mundo. Só fica bonito depois das 17 h.
    • Trocar euros ou dólares em Islamabad antes do voo. No norte quase nenhum ATM aceita cartões estrangeiros.
    • Como se diz: Islamabad islamabád, Skardu skárdu, Shigar chigár, Sarfaranga sarfarânga.
  • Dia 02 · Seg 14
    Hussainabad e Marsur Rock
    • Um dos três dias duros: 800 m de desnível em menos de 3 km, sem sombra.
    • Sair cedo, 2 litros de água por pessoa, chapéu, protetor 50. UV a 2.500 m queima em 40 minutos.
    • Terreno solto e pedregoso. Bastões ajudam mais na descida.
    • Marsur Rock é uma laje de 11 m em consola sobre o vale, "descoberta" pelo turismo em 2017 via redes sociais. Sem barreiras; o vento a meio da tarde é real.
    • Baltistão é xiita, com minoria Noorbakhshi, e bem mais conservador que Hunza. Mulheres locais raramente aparecem em público.
    • Lenço não é obrigatório. Ombros e joelhos cobertos evitam olhares.
    • Alternativa a quem não quer subir: ficar em Hussainabad. A viagem continua igual no dia seguinte.
    • Como se diz: Hussainabad hussainabád, Marsur marsúr, Noorbakhshi nurbákhchi.
  • Dia 03 · Ter 15
    Skardu → Raikot Bridge → Tato → Fairy Meadows
    • Manhã de estrada pelo vale do Indo até à ponte de Raikot. Depois troca para jipes locais.
    • Raikot–Tato: 15 km de pista escavada na encosta, sem rails, regularmente listada entre as estradas mais perigosas do mundo.
    • Regra não escrita: não pedir para parar, não fotografar o condutor. Quem tem vertigens senta do lado da montanha.
    • Tato → Fairy Meadows: 2–3 h a pé, 5 km, 600 m de subida por pinhal. Mulas levam a bagagem grande.
    • Chega-se a 3.300 m. Dormir aqui é o teste real à altitude.
    • Cabanas de madeira sem aquecimento fiável, água quente rara. Noite perto de 0 °C: gorro, meias grossas, liner.
    • Melhor noite de céu da viagem. Sem luz elétrica em redor, a Via Láctea aparece sobre o Nanga Parbat.
    • Carregar tudo o que tem bateria antes de sair de Skardu. Powerbank e lanterna frontal a partir daqui.
    • Como se diz: Raikot ráikot, Tato táto, Fairy Meadows féri mêdous, Nanga Parbat nânga párbat.
  • Dia 04 · Qua 16
    Fairy Meadows ⇄ Beyal Camp
    • 4 km até Beyal a cerca de 3.550 m. Terreno suave; o que pesa é o ar.
    • Ritmo lento, passo curto, água sempre. Sem álcool na véspera.
    • Quem estiver bem segue 1,5 km até ao miradouro do Nanga Parbat, perto dos 3.900 m, com o glaciar Raikot à frente.
    • A face visível é a Raikot. "Killer Mountain" por 31 mortes antes da primeira ascensão, em 1953, por Hermann Buhl, sozinho e sem oxigénio.
    • Sintomas a vigiar: dor de cabeça que não passa com água e analgésico, náusea, cansaço desproporcional. A resposta é descer, não insistir.
    • Alternativa: ficar em Fairy Meadows. A vista da montanha é a mesma.
    • Como se diz: Beyal beiál, Raikot ráikot.
  • Dia 05 · Qui 17
    Fairy Meadows → Karakoram Highway → Minapin
    • Descida a pé, jipe até Raikot e depois a Karakoram Highway para norte.
    • Em Jaglot, o ponto onde Karakoram, Himalaias e Hindu Kush se tocam e o rio Gilgit desagua no Indo. É um painel e um miradouro; a geologia impressiona mais que a vista.
    • Miradouro de Rakaposhi (7.788 m): um dos raros lugares onde se vê uma montanha do vale ao cume, quase 6.000 m de parede sem interrupção.
    • Os cafés à beira da estrada servem chá ao lado do rio glaciar. Parar.
    • Minapin fica na base do Rakaposhi. A partir daqui é Hunza: mulheres a conduzir, cafés mistos, ninguém a olhar.
    • Como se diz: Jaglot djaglót, Rakaposhi rakapôchi, Minapin minapín, Hunza húnza.
  • Dia 06 · Sex 18
    Hopper, Ganesh, Baltit e Altit
    • O glaciar de Hopper é negro de detritos, não branco. Pisa-se sem equipamento, mas o gelo sob o cascalho é traiçoeiro. Seguir o guia, não a foto.
    • Ganesh é a aldeia mais antiga de Hunza, xiita numa região ismaelita, com mesquitas de madeira dos séculos XV a XVIII. Fica fora dos roteiros; pedir para parar.
    • Altit (c. 1100) é mais antigo que Baltit (c. 1300) e mais honesto: menos restauro, mais rocha.
    • Baltit parece um castelo tibetano porque um príncipe casou com uma princesa de Baltistão e trouxe os artesãos. Restaurado pelo Aga Khan Trust em 1996.
    • Kha Basi Café, em Altit, é gerido por mulheres locais. Melhor almoço do dia.
    • Sexta é dia de oração: lojas fecham perto do meio-dia em muitas aldeias, menos em Karimabad.
    • Em Hunza central a eletricidade pode faltar 18–22 h por dia. Carregar quando há corrente.
    • Como se diz: Hopper hôper, Ganesh ganêch, Baltit baltít, Altit altít, Karimabad karimabád, Kha Basi khá bássi.
  • Dia 07 · Sáb 19
    Gojal: Attabad, Hussaini, Passu, Khunjerab
    • Partida às 5 h porque Khunjerab fica a cerca de 4 h e a fronteira fecha cedo.
    • Khunjerab, 4.693 m: a fronteira pavimentada mais alta do mundo. Sobe-se de 2.400 m para 4.700 m em carro, sem aclimatação. Falta de ar e dor de cabeça são esperadas; ficar pouco tempo lá em cima.
    • Permit do parque nacional paga-se à entrada. O guia trata.
    • Attabad não existia antes de 4 de janeiro de 2010. Um deslizamento matou 20 pessoas, enterrou a aldeia e represou o rio Hunza. O lago cortou a KKH cinco anos, até os túneis chineses abrirem em 2015.
    • A ponte de Hussaini é tábuas espaçadas e cabos. Só com o rio baixo e o vento parado.
    • A partir de Gulmit o povo é Wakhi, não Burusho: outra língua, ligações ao Afeganistão e ao Tajiquistão. As mulheres tecem os tapetes do ateliê.
    • Pequeno-almoço wakhi: bolo de alperce e chá com sal e manteiga. Faz sentido a 3.000 m.
    • Quem não quer subir a 4.700 m fica em Passu e apanha o grupo à volta.
    • Como se diz: Gojal godjál, Attabad atabád, Hussaini hussêini, Passu pássu, Khunjerab khundjeráb, Gulmit gulmít, Wakhi uákhi, Burusho burúcho.
  • Dia 08 · Dom 20
    Hunza → Gilgit → Ghizer → Gupis
    • Dia de estrada pelo vale de Ghizer, o "outro" caminho da Rota da Seda. Obras em vários troços; contar com mais horas do que o mapa diz.
    • O rio Ghizer é turquesa verdadeiro, não filtro.
    • Ghizer é a região mais tolerante de Gilgit-Baltistan, ismaelita como Hunza.
    • É a fronteira linguística: deixa-se de ouvir Burushaski e Shina, começa-se a ouvir Khowar, a língua de Chitral.
    • Se houver tempo, o lago Phander ao fim da tarde justifica um desvio de vinte minutos. Quase sem turistas em setembro.
    • Últimos dias com rede móvel irregular até Chitral. Avisar a família.
    • Como se diz: Ghizer guizér, Gilgit guílguit, Gupis gúpis, Phander fândar, Burushaski buruchásski, Shina chiná, Khowar khouár.
  • Dia 09 · Seg 21
    Gupis → Shandur Top → Mastuj
    • Shandur, 3.700 m, é um planalto e não um passo estreito: o campo de polo mais alto do mundo, onde Chitral e Gilgit se enfrentam em julho desde os anos 1930.
    • Em setembro está vazio, com pastores e iaques.
    • Pista de terra e cascalho, 1.ª e 2.ª velocidade durante horas. Quem enjoa toma algo antes do pequeno-almoço, não depois.
    • A pista fecha com a primeira neve, normalmente em novembro. Em setembro pode haver geada de manhã.
    • Ao descer para Mastuj entra-se em Khyber Pakhtunkhwa. Checkpoint com registo de estrangeiros: passaporte e fotocópias à mão.
    • Mastuj tem um forte do século XVIII da família real de Chitral. Guesthouse básica, noite fria.
    • Como se diz: Shandur chandúr, Mastuj mastúdj, Khyber Pakhtunkhwa khâiber pakhtunkhuá.
  • Dia 10 · Ter 22
    Mastuj → Chitral → Ayun → Rumbur
    • Chitral foi principado independente até 1969. O povo Kho fala Khowar, sunita na maioria, com minoria ismaelita a norte.
    • Mais conservador que Hunza: ombros e joelhos cobertos. Só há homens nos bazares.
    • Em Chitral, o Shahi Masjid junto ao forte, com o Tirich Mir (7.708 m) ao fundo em dias limpos.
    • Almoço em Chitral é o último com escolha real de restaurantes até Peshawar.
    • Entrada nos vales Kalash paga-se em Ayun, cerca de 600 PKR por estrangeiro, com registo de passaporte.
    • Rumbur é o vale mais estreito e menos turístico dos três. Bumburet tem os hotéis e os autocarros de fim de semana. A escolha foi deliberada.
    • Como se diz: Chitral tchitrál, Kho khô, Tirich Mir tíritch mír, Shahi Masjid cháhi másdjid, Ayun aiún, Rumbur rumbúr, Bumburet bumburét.
  • Dia 11 · Qua 23
    Um dia com os Kalash
    • Os Kalash não são muçulmanos. Cerca de 4.000 pessoas, religião própria e politeísta, deuses de montanha, sacrifícios de cabras, três festivais anuais.
    • Chawmos, no solstício de dezembro, é o maior. Em setembro não há festival; há a vida normal, que é o que se vai ver.
    • A brochura coloca-os em Gilgit-Baltistan. É em Chitral, Khyber Pakhtunkhwa.
    • Mulheres de rosto descoberto, vestidos pretos bordados, toucados de conchas e missangas. Produzem e bebem vinho de uva e mulberry.
    • Nada disto é "atração". Não pagar por fotografias, não fotografar sem perguntar, nunca fotografar mulheres em silêncio à distância. O turismo de fotografia já causou problemas reais no vale.
    • Bashali é a casa onde as mulheres passam a menstruação e o parto. Interdita a homens e a visitantes; fica junto ao rio, o guia dirá onde não ir.
    • As sepulturas antigas eram caixões de madeira ao ar livre. Hoje quase todas enterradas, após décadas de roubo de ossos por curiosos.
    • Cada vez mais Kalash convertem-se ao Islão, sobretudo por casamento. Tema sensível: ouvir mais do que perguntar.
    • Um copo de vinho é cortesia; recusar com um sorriso é aceitável. Fotografar o copo alheio não.
    • Como se diz: Kalash kalách, Chawmos tchaumós, Bashali bacháli.
  • Dia 12 · Qui 24
    Rumbur → Lowari → Dir → Peshawar
    • Dia mais longo de estrada, 10 h ou mais.
    • O túnel de Lowari, 8,5 km, substituiu em 2017 um passo que fechava Chitral seis meses por ano. Funciona com horários e sentido único por períodos; atrasos são normais.
    • Dir e Swat inferior são território pashtun. A partir daqui a hospitalidade é código, o Pashtunwali: convidar um estranho para chá é obrigação.
    • As mulheres locais desaparecem do espaço público quase por completo.
    • Não fotografar polícia, militares, pontes ou quartéis. Vários checkpoints.
    • Em Peshawar muitos hotéis avisam a polícia e aparece escolta para estrangeiros. Não se pede, não se recusa. É protocolo, não sinal de perigo iminente.
    • Como se diz: Lowari louári, Dir dír, Pashtunwali pachtunuáli, Peshawar pecháuar.
  • Dia 13 · Sex 25
    Peshawar, cidade velha
    • Mesquita Mohabbat Khan, 1660–1670, mármore branco e frescos florais mogóis.
    • É sexta: evitar a hora da oração (13–14 h). Mulheres com lenço, todos sem sapatos e com joelhos cobertos.
    • Qissa Khwani, o "bazar dos contadores de histórias", é onde as caravanas da Ásia Central paravam a ouvir baladas.
    • Chapli kebab: almôndega plana de vaca com romã seca e coentros, frita em gordura de borrego. Qehwa: chá verde com cardamomo, oferecido em cada loja.
    • Namak Mandi é a rua da carne à noite. O karahi de cabrito pede-se ao quilo.
    • Sethi House, no bairro de Mohallah Sethian: casa de mercadores do século XIX com madeira entalhada e espelhos, a dez minutos a pé do bazar. Poucos roteiros a incluem.
    • Peshawar é a cidade mais conservadora do roteiro. Fotografar pessoas só com pedido explícito, nunca mulheres.
    • Como se diz: Mohabbat Khan mohábat khán, Qissa Khwani quíssa khuáni, qehwa kéhua, chapli kebab tchápli kebáb, Namak Mandi namák mândi, Sethi sêti.
  • Dia 14 · Sáb 26
    Peshawar → Islamabad
    • Duas horas de autoestrada.
    • Islamabad é uma cidade planeada dos anos 1960, desenhada pelo grego Doxiadis, em quadrícula com setores por letra e número. Mais Brasília que Peshawar.
    • Faisal Mosque, 1986: sem cúpula, em forma de tenda beduína, a maior do mundo até 1993.
    • Daman-e-Koh, nas colinas Margalla, tem a vista sobre a cidade ao pôr do sol.
    • Rúpias não se trocam facilmente fora do país. Gastar ou trocar hoje.
    • Alperces secos, sal rosa e xailes de pashmina passam na alfândega europeia. Sementes e frutos frescos não.
    • Como se diz: Faisal fáissal, Daman-e-Koh damân-e-kô, Margalla margála.
  • Dia 15 · Dom 27
    Voo de madrugada e regresso
    • O aeroporto de Islamabad tem três controles de segurança antes do check-in. Chegar com três horas.
    • Certificado de pólio só é exigido à saída a quem ficou mais de quatro semanas. Não se aplica a este grupo.
    • +4 h em relação a Portugal. O corpo chega na segunda.
A Karakoram Highway a serpentear junto ao rio Hunza com as agulhas de granito dos Passu Cones ao fundo.
Passu Cones vistos da Karakoram Highway, em Gojal. A estrada foi construída entre 1959 e 1979 por trabalhadores paquistaneses e chineses; cerca de 1.000 morreram a abri-la. Foto: Shaguftakarim, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Quatro códigos culturais.

Não há um Paquistão. Há o Baltistão, Hunza, Chitral e o país pashtun, e a viagem passa por eles nesta ordem. O que é normal num sítio é rude no seguinte.

Baltistão: Tibete xiita.

Balti é uma língua tibetana arcaica escrita em alfabeto persa. A comida não é picante: prapu (massa com molho de nozes e óleo de alperce), kisir (pão de trigo sarraceno), chá de manteiga. Conservador; mulheres locais quase invisíveis. Fotografar homens é aceitável com um aceno; mulheres, não.

dias 1–2

Hunza: o vale ismaelita.

Seguem o Aga Khan. Alfabetização perto dos 95%, a mais alta do país. Sem mesquitas com minaretes, mas jamaat khanas discretas. Mulheres em cafés, a conduzir, a gerir negócios. Burushaski, a língua, não tem parente conhecido no mundo. Alperce em tudo: seco, em óleo, em sopa, em bolo.

dias 5–8

Chitral e Kalash: a exceção.

Chitral sunita e formal; Kalash politeístas com vinho e dança. A hospitalidade nos dois é séria: aceitar o chá, sentar quando oferecem, tirar os sapatos ao entrar em casa. Em Kalash, o grupo será convidado a beber; recusar com um sorriso é aceitável, fotografar o copo alheio não.

dias 9–11

Pashtun: o código de honra.

Pashtunwali organiza tudo: melmastia (hospitalidade), nanawatai (asilo), badal (vingança). Um convidado é sagrado, e a insistência para comer mais é sincera. Cumprimento entre homens é aperto de mão e mão ao peito; a mulher estrangeira espera que o homem local estenda a mão primeiro, e muitos não estendem. Não é hostilidade.

dias 12–13
  • Baltistão
    O Pequeno Tibete que virou xiita.
    • Até ao século XIV era budista e parte do mundo tibetano. Balti é um tibetano arcaico que preservou sons que Lhasa perdeu; escreve-se hoje em alfabeto persa, e há um movimento para recuperar a escrita tibetana.
    • O Islão chegou por missionários sufis vindos do Irão e da Caxemira. A ordem Noorbakhshi, quase exclusiva do Baltistão, é um meio-termo entre sunismo e xiismo e sobrevive em Khaplu e Shigar.
    • Skardu é xiita duodecimano. Bandeiras negras e verdes, retratos de clérigos e murais de Karbala são normais na cidade. Não são ameaça; também não são para fotografar.
    • Dois principados, dois palácios: os Maqpon em Skardu e os Amacha em Shigar. O Shigar Fort do almoço do dia 1 é a casa dos Amacha, do século XVII, restaurada pelo Aga Khan Trust em 2005.
    • As mesquitas antigas são de madeira e parecem pagodes: Amburiq em Shigar, século XIV, é a mais antiga da região. Vale a paragem se o guia aceitar.
    • Setembro é a época de secar alperce. Telhados cor de laranja em Shigar e Skardu não são decoração; é a economia da família a secar ao sol.
    • Polo é o desporto de identidade, jogado sem árbitro e sem muitas regras, com surnai e tambores a marcar o ritmo. Shigar e Skardu têm campos no centro da aldeia.
    • Mulheres do grupo: vestir mais coberto do que em Hunza, sem obrigação de lenço. Homens do grupo: não estender a mão a mulheres locais, e não haverá muitas para cumprimentar.
  • Hunza
    Um principado ismaelita que apostou em escolas.
    • Foi um estado com príncipe, o Mir, até 1974. A família ainda vive em Karimabad, abaixo do forte de Baltit que era a sua casa até 1945.
    • Ismaelitas seguem o Aga Khan como imã vivo. O atual é o Aga Khan V, Rahim, desde fevereiro de 2025, após a morte do pai. O retrato do imã está em quase todas as casas e lojas.
    • A rede Aga Khan investe aqui desde 1982: escolas, saúde, restauro de fortes, canais de irrigação. Resultado: alfabetização perto dos 95%, a mais alta do país, e a maior proporção de mulheres com curso superior.
    • Sem mesquitas com minaretes nem chamada à oração. Os ismaelitas rezam em jamaat khanas, fechadas a não ismaelitas. Sexta não fecha o vale.
    • Mulheres trabalham em público: o Kha Basi Café em Altit, a oficina de carpintaria CIQAM ao lado, a escola de música Bulbulik em Gulmit. Cumprimentar e conversar com mulheres é normal.
    • Burushaski não tem parente conhecido em nenhuma família linguística. Conta em base 20, tem quatro géneros gramaticais e cerca de 100.000 falantes.
    • A fama de longevidade (os "Hunzakuts que vivem 120 anos", Shangri-La de James Hilton) é mito dos anos 1930 sem registo civil por trás. Os locais riem-se disto, e ouvem-no todas as semanas.
    • O pôr do sol certo é em Duikar (Eagle's Nest), acima de Altit, com Rakaposhi, Ultar e Ladyfinger de uma vez. Não está no programa; fica a 20 minutos de Karimabad.
    • Hunza water, o vinho de mulberry, é ilegal e tolerado em privado. Se oferecerem, é confiança. Não pedir, não fotografar, não comentar em público.
  • Chitral · Kalash
    Um principado sunita e o último vale politeísta.
    • Chitral teve príncipe próprio, o Mehtar da dinastia Katoor, até 1969. O forte ainda pertence à família. O Shahi Masjid ao lado é de 1924, construído pelo Mehtar da época.
    • Os Kho são conhecidos no país por música e poesia em Khowar, pelo sitar chitrali e por tecer lã: o pakol e o casaco comprido, chugha, vêm daqui.
    • Os Kalash organizam o mundo em puro e impuro, onjesta e pragata. Homens, montanhas, cabras e o alto do vale são puros. Mulheres, o fundo do vale e os forasteiros não. A Bashali é uma consequência disto, não um castigo.
    • Templos: o Jestak-han é a casa da deusa da família, com pilares de madeira entalhados, e o altar de Mahandeo fica fora da aldeia, num lugar puro. Visitantes só com o guia local e só onde ele indicar.
    • Cerca de 7.500 falantes de Kalasha no censo de 2023, mas menos de 4.000 ainda praticam a religião. As conversões continuam, sobretudo por casamento. Convertidos vestem-se de forma diferente e deixam o vale ou a família.
    • Bumburet recebe milhares de turistas paquistaneses nos festivais, e as mulheres Kalash queixam-se de assédio e de fotografias sem consentimento. Rumbur ficou de fora disso, por agora. O grupo é parte de manter isso assim.
    • Apoio que funciona: comprar colares de missangas e shushut diretamente às mulheres que os fazem, pagar a guesthouse local, comprar vinho e queijo às famílias. Não dar doces a crianças nem dinheiro por fotografias.
    • Vinho Kalash chama-se tara. Serve-se em festas e a convidados; o grupo será convidado.
  • Pashtun
    Peshawar: 2.000 anos de cidade e um código de honra.
    • Pashtunwali é lei não escrita, mais antiga que o Islão na região. Melmastia é hospitalidade sem esperar retorno. Nanawatai é asilo a quem pede, mesmo inimigo. Badal é retribuição, boa ou má. Um convidado está protegido pelas três.
    • Hujra é a sala de hóspedes comunitária dos homens de uma aldeia ou família. Um grupo estrangeiro pode ser convidado; mulheres estrangeiras são muitas vezes tratadas como convidados honorários e entram, mas cabe ao anfitrião convidar.
    • Purdah é forte: em Peshawar a maioria das mulheres usa chadar ou burqa. Para as mulheres do grupo, lenço e dupatta não são obrigatórios por lei mas mudam tudo na rua.
    • Homens de mãos dadas ou de braço dado em público são amizade, não casal. Homens que se conhecem abraçam-se três vezes.
    • Peshawar foi capital de Gandhara, o reino budista que inventou o Buda com rosto grego. O Museu de Peshawar tem a maior coleção de escultura Gandhara do mundo. Não está no programa, fica a 10 minutos da mesquita e é a melhor hora do dia 13.
    • Nos anos 1980 a cidade foi a capital da resistência afegã e recebeu milhões de refugiados. A comida, o naswar (rapé verde que os homens levam sob o lábio) e o rubab são tão afegãos quanto paquistaneses.
    • A Peshawari chappal, sandália de couro com sola de pneu, é o souvenir do país inteiro e compra-se onde nasceu, em Namak Mandi ou Jahangirpura. Feita à medida em duas horas por 3.000 a 6.000 PKR.
    • Não fotografar polícia, Frontier Corps, o forte de Bala Hisar nem pontes. Homens no bazar geralmente querem ser fotografados; pedir de qualquer forma. Mulheres, nunca.

Regras que valem nos quatro.

Mão direita para comer, dar e receber. Sapatos fora em casas, mesquitas e muitas guesthouses. Não apontar a sola dos pés a ninguém. Álcool é ilegal para muçulmanos e não se vende; a exceção Kalash e o vinho de mulberry de Hunza são caseiros e discretos. Não beber nem comer em público durante a oração de sexta é cortesia, não regra. E o convite para chá é sempre real.

Palavras que abrem portas.

Urdu é a língua comum e chega em todo o lado. Mas cada vale tem a sua, quase nenhuma se escreve há mais de duas gerações, e uma palavra local dita com sotaque errado vale mais do que dez em urdu perfeito. A grafia varia; ninguém corrige um estrangeiro que tenta. A pronúncia abaixo está escrita à portuguesa: kh é o "j" espanhol, um "r" arranhado na garganta; o acento marca a sílaba forte.

  • Todo o país
    Assalam-o-alaikum assalâmu alêicum · resposta: ualêicum assalâm

    "A paz esteja convosco". Resposta: Walaikum assalam. Serve para entrar em qualquer loja, carro ou casa.

  • Hunza, Gojal, Ghizer
    Ya Ali Madad iá áli madád · resposta: móla áli madád

    A saudação ismaelita, "que Ali ajude". Resposta: Mawla Ali Madad. É o que distingue quem percebeu onde está de quem não percebeu. Não usar em Skardu nem em Peshawar.

  • Skardu, Baltistão
    Khamulo khamúlo

    Saudação tradicional balti, revivida nos últimos anos e visível em letreiros de cafés. Os mais velhos respondem com um sorriso de surpresa.

  • Hunza central
    Besan hal bila? bêssan hál bilá · resposta: chúa

    "Como estás?" em Burushaski, a língua sem parentes. Resposta simples: shuwa, bem.

  • Gojal (Gulmit, Passu)
    Baf báf

    "Bem" em Wakhi. É a resposta a "como estás?" e a única palavra necessária para os wakhi ficarem contentes.

  • Vales Kalash
    Ishpata ichpáta

    Olá em Kalasha, língua com cerca de 7.000 falantes. É a palavra mais valiosa da viagem inteira: quase nenhum visitante a sabe.

  • Dir, Peshawar
    Pakhair pakhêr · resposta: pakhêr rághle · manâna · khá

    Bem-vindo em Pashto, dito por quem recebe. A resposta é pakhair raghle. Obrigado é manana. "Bem" é kha.

  • Todo o país
    Shukriya chúcria · bôhat chúcria · djúan

    Obrigado em urdu. Bohat shukriya para muito obrigado. Em Hunza também se ouve juwan.

  • Todo o país
    Theek hai tík hê

    "Está bem", "ok", "combinado". A palavra mais usada do país. Com entoação de pergunta pergunta se está tudo bem.

  • Bazares
    Kitne ka hai? kítne ká hê

    "Quanto custa?". Em Peshawar negoceia-se; em Hunza os preços são quase fixos e insistir é deselegante.

  • Todo o país
    Photo theek hai? fôto tík hê

    "Posso fotografar?" em urdu de rua. Um gesto com o telemóvel e esta frase resolvem 90% das situações. Um "não" é definitivo.

  • Todo o país
    Inshallah inchálla

    "Se Deus quiser". Sobre um voo, uma estrada ou um horário significa "provavelmente, mas não prometo". Ouvir isto sobre o voo para Skardu é normal.

  • Todo o país
    Bhai / Baji bhái (b com sopro) / bádji

    Irmão / irmã mais velha. É como se chama um condutor, um empregado ou uma vendedora sem saber o nome. Muito mais simpático do que "senhor".

  • Todo o país
    Zabardast zabardást

    "Fantástico". Dizê-lo sobre a comida, a vista ou a condução do jipe rende um sorriso garantido.

  • Todo o país
    Khuda hafiz khudá háfiz · allá háfiz

    Adeus, "que Deus te guarde". Muitos dizem Allah hafiz; as duas formas são aceites.

Detalhes que fazem a diferença.

  • Vestir
    Um shalwar kameez comprado no primeiro dia.
    • Custa entre 2.000 e 4.000 PKR feito, em Islamabad ou Skardu. Em algodão claro é a roupa mais confortável para 3.000 m de dia e Peshawar à noite.
    • Muda a forma como se é tratado nas aldeias, nos checkpoints e nos bazares. Não é fantasia; é o que toda a gente veste.
    • Para mulheres, um dupatta (lenço comprido) resolve mesquitas, Chitral e Peshawar sem ter de mudar de roupa.
    • Como se diz: shalwar kameez chalúar camíz, dupatta dupáta.
  • Cabeça
    Os chapéus dizem de onde cada um é.
    • O pakol, boina de lã enrolada, é de Chitral e usada em todo o Hindu Kush. Comprá-lo em Chitral, não em Islamabad.
    • Em Hunza os homens usam um gorro de lã branca com aba enrolada e uma pena; as mulheres um barrete bordado sob o lenço, cada padrão ligado a uma aldeia.
    • As mulheres Kalash usam o kupas, o toucado grande de conchas, em dias de festa, e o shushut, a banda mais pequena, todos os dias. Não pedir para experimentar.
    • Como se diz: pakol pakól, kupas kupás, shushut chuchút.
  • Cumprimentar
    Mão direita ao peito depois do aperto de mão.
    • Entre homens: aperto de mão e a mão direita leva-se ao coração. Em Peshawar, homens que se conhecem abraçam-se três vezes.
    • Homem estrangeiro não estende a mão a uma mulher local. Mulher estrangeira espera que o homem estenda primeiro; muitos não estendem e levam a mão ao peito. Não é frieza.
    • Em Hunza a regra é mais solta: as mulheres cumprimentam e conversam. Em Skardu, Chitral e Peshawar, não.
  • Chá
    O chá é a moeda social. Aceitar sempre o primeiro.
    • Doodh patti é o chá do país: folhas fervidas em leite com açúcar, sem água. Pedir "kam cheeni" para menos açúcar.
    • Em Baltistão e Gojal há chá com sal e manteiga, herança tibetana e wakhi. Prova-se sem cara.
    • Em Peshawar o chá é verde, qehwa, com cardamomo, servido em bule e sem leite. Recusar a segunda chávena: tapar a chávena com a mão ou virá-la ao contrário.
    • A oferta de chá de um estranho é sincera e não espera nada em troca. Dez minutos sentado valem mais do que qualquer fotografia.
    • Como se diz: doodh patti dúd páti, kam cheeni kam tchíni, qehwa kéhua.
  • Mesa
    Mão direita, pão como talher, anfitrião serve.
    • Come-se com a mão direita. O roti ou o naan rasga-se em pedaços e usa-se para apanhar a comida. A esquerda fica no colo.
    • Deixar um pouco no prato é sinal de que se ficou satisfeito. Prato vazio traz mais comida, sem pergunta.
    • Em casa de alguém, o anfitrião come depois dos convidados ou não come. Insistir para que se sente é cortesia; ele vai recusar.
    • Não há álcool à mesa em lado nenhum, exceto em casas Kalash. Não pedir cerveja em restaurantes; não existe.
    • Como se diz: roti rôti, naan nân.
  • Conversa
    Críquete abre, política fecha.
    • Críquete é a conversa universal com qualquer homem entre 8 e 80 anos. Saber que o Paquistão ganhou o Mundial de 1992 e o T20 de 2009 já chega.
    • Índia, Caxemira, o exército e os drones são temas que os locais podem levantar; o visitante não levanta. Ouvir e não opinar.
    • Perguntar pela família é normal e esperado, mas perguntar por "a esposa" a um homem pashtun não. Pergunta-se pela "família".
    • Cumprimentos ao país e à comida são sempre bem recebidos, mesmo quando sinceros só em parte. Comparar com a Índia, nunca.
  • Rezar
    Cinco vezes por dia, e o país para durante uns minutos.
    • O azan, a chamada, ouve-se em Skardu, Chitral e Peshawar. Em Hunza não: os ismaelitas rezam em jamaat khanas, discretas, fechadas a não ismaelitas.
    • Se um condutor ou guia para para rezar, esperam-se dez minutos sem comentar. Não fotografar quem reza.
    • Na mesquita Mohabbat Khan: sapatos fora, joelhos e ombros cobertos, lenço para mulheres, silêncio. Fora das horas de oração é bem-vindo quem vem ver.
    • Como se diz: azan azân, jamaat khana djamát khâna.

O que comer, e onde.

As refeições não estão incluídas, o que é uma vantagem. A comida do norte é pouco picante, cheia de nozes e alperce, e muda de vale para vale.

  • Baltistão
    Prapu, kisir, chá de manteiga.

    Prapu é massa fresca com molho de nozes moídas e óleo de alperce. Kisir é pão fino de trigo sarraceno. Os alperces de Skardu são mais doces que os de Hunza, e os locais fazem questão de dizer isso.

    Como se diz: prapu prápu, kisir kissír, Balti bálti.

  • Hunza
    Chapshuro, giyaling, bolo de nozes.

    Chapshuro é um pão recheado de carne picada, cebola e coentros, cozido em chapa: a "pizza de Hunza". Giyaling é panqueca fina de trigo com óleo de alperce. O bolo de nozes do Café de Hunza em Karimabad é o mais famoso do país e merece a fila. Hunza water é o vinho de mulberry caseiro, ilegal em teoria, oferecido em privado.

    Como se diz: chapshuro tchapchúro, giyaling guialíng.

  • Chitral
    Shoshp, kali, chá verde.

    Cozinha de inverno: massa em caldo, pão frito, nozes e mel. Os Kalash fazem queijo de cabra seco e pão de nozes. O vinho Kalash é ácido e forte; um copo é cortesia, dois é decisão.

    Como se diz: shoshp chóchp, kali káli.

  • Peshawar
    Chapli kebab, karahi, qehwa.

    Chapli kebab pede-se em Namak Mandi ou junto ao bazar, frito à vista. O karahi de Peshawar é só carne, tomate, sal e pimenta verde, sem molho pesado, ao quilo. Qehwa é chá verde com cardamomo; oferecido em cada loja onde se fica mais de dois minutos.

    Como se diz: chapli tchápli, karahi karáhi, qehwa kéhua.

Fontes e leitura adicional